a vida prejudica a expressão da vida. se eu vivesse um grande amôr nunca o poderia contar. eu próprio não sei se este eu, que vos exponho, por estas colleantes paginas fóra, realmente existe ou é apenas um conceiro esthetico e falso que fiz de mim próprio. sim, é assim. vivo-me estheticamente em outro. esculpi a minha vida como a uma estatua de materia alheia a meu ser. às vezes não me reconheço, tão exterior me puz a mim, e tão de modo puramente artistico empreguei a minha consciencia de mim próprio. quem sou por detraz de esta irrealidade? não sei. devo ser alguém. e se não busco viver, agir, sentir é - crede-me bem - para não perturbar as linhas feitas da minha personalidade suposta. quero ser tal qual quiz e não sou. se eu cedesse destruir-me-hia. quero ser uma obra de arte, da alma pelo menos, já que do corpo não posso ser. por isso esculpi em calma e alheiamento e me puz em estufa, longe dos ares frescos e das luzes francas - e onde a minha artificialidade, flor absurda, floresça em affastada belleza.[bernardo soares in livro do desassossego - conforme original]