O dia amanhece e aguça os sentidos: o cheiro do café no coador, os passarinhos fazendo algazarra no abacateiro frondoso, verde, e ao fundo o azul tranquilo de mais um dia fresco e sem chuva. Estamos em setembro. A praça do Campo Grande festeja, liberando pólen, folhas e flores das diversas plantas centenárias. Me apaixonei de novo e por isso meu corpo responde a tudo, sensitivo. A realidade me atinge feito uma descarga elétrica. As sensações parecem um tijolo concreto subindo e descendo na barriga. Sinto uma necessidade imperativa de não mexer em nada, de evitar qualquer esforço e de não me dispersar. Observo, observo, observo. Abro os olhos às seis já muito atenta a tudo. Presto atenção ao que sempre esteve ali e eu não via: um facho de claridade que passa através da persiana; as cores da casa chocando-se umas contra as outras; as formas do corpo dela, fartas e exuberantes; o tic tac dos ponteiros trabalhando. A sensação de estar viva é tão definitiva que é como se eu não pudesse voltar atrás.